Guia de flexibilidade para adultas

Espacate para iniciantes: como treinar a abertura de pernas depois de adulta, com segurança

Renata Bardazzi, bailarina do Balé da Cidade de São Paulo, sentada no chão, alongando o tronco sobre a perna estendida

Dá para começar a treinar o espacate depois de adulta, sim, mesmo sem nunca ter feito, e ganhar abertura de pernas aos poucos. O caminho é preparo, não força: aquecer, soltar o quadril, usar apoio e parar no desconforto, nunca na dor.

Se você vai encostar o quadril no chão, e quando, depende do seu corpo e da sua constância, e ninguém sério consegue prometer prazo. Neste guia de espacate para iniciantes, eu explico o que o espacate frontal e o lateral alongam, o que preparar antes, um passo a passo de alongamento para abertura de pernas, com bloco e parede, para fazer em casa, por que um lado abre e o outro não e quando conversar com o médico.

Dá para fazer espacate depois de adulta?

Dá para treinar, sim, e o corpo adulto responde. Como eu costumo dizer: "você não é encurtada, você está encurtada. Isso tem jeito". Flexibilidade não é dom. Eu mesma não nasci flexível: "o que me mantém solta até hoje não é dom, é simplesmente um ritual de soltura que eu preciso fazer todos os dias, senão o meu corpo não responde".

O que muda no corpo adulto é a pressa que ele aguenta. Nas aulas eu falo assim: "pra quem nunca fez, eu acho uma loucura querer zerar aberturas, espacates, pontes, principalmente num corpo adulto". Zerar é encostar o quadril no chão, e querer isso de cara traz um risco muito grande de se machucar. O foco não é zerar logo: é o seu corpo chegar aos poucos, com respeito e com limites, à amplitude máxima dele.

Por isso este guia não traz desafio com prazo. Traz o caminho que eu uso com as minhas alunas, que começa de onde o seu corpo está hoje.

Espacate frontal ou lateral: qual a diferença e o que cada um alonga?

Os dois são aberturas de pernas a 180 graus, mas pedem coisas diferentes do corpo:

  • Espacate frontal (ou de frente): uma perna estendida à frente e a outra atrás. Alonga principalmente a parte de trás da coxa da perna da frente, o posterior de coxa, e a frente do quadril da perna de trás, onde fica o iliopsoas. É um músculo em que a gente segura muita tensão do quadril, e bailarina costuma ter ele muito preso, por conta da sustentação de perna. Eu tenho.
  • Espacate lateral (ou de lado): as pernas abertas para os lados, na segunda posição, como a gente diz no Ballet. Alonga principalmente a parte interna das coxas, os adutores, e pede bastante mobilidade do quadril.

Qual é mais fácil? Depende do corpo. No teste de flexibilidade em 8 movimentos que eu passo para as alunas, eu mostro as minhas limitações: tenho bastante amplitude nas segundas posições, com as pernas para os lados, e o posterior de coxa muito encurtado, "nem parece bailarina". Por isso o caminho é treinar os dois, na mesma sessão, cada um no seu tempo.

Na Rotina de Flexibilidade, o meu programa de aulas guiadas, a primeira aula dedicada ao espacate frontal é da terceira semana, depois de duas semanas trabalhando respiração, quadril, posterior de coxa e parte interna da coxa. A aula dos splits, como eu chamo os espacates nas aulas, é da quinta semana. Não é enrolação: é o tempo de preparar o corpo.

O que preparar antes de treinar o espacate?

Espacate não se faz com o corpo frio. Quando a gente está fria, fica mais difícil mesmo, e a vontade de forçar aparece. Antes de qualquer abertura:

  • Aqueça e mobilize o quadril. Abrir e fechar as pernas, círculos de quadril em quatro apoios e a posição sentada com as duas pernas dobradas para o mesmo lado, trocando de um lado para o outro. O quadril é uma região que sente muito as travas do corpo, tanto de quem dança quanto de quem passa horas sentada.
  • Respire. Inspire e solte o ar devagar: é na expiração que os músculos cedem e a articulação ganha espaço. Se você perceber que está prendendo o ar, recue um pouco.
  • Separe o material. Um tapete ou uma toalha grande, um bloco (uma almofada firme ou um livro grosso substituem) e um pedaço de parede livre.
  • Escolha um horário fixo. Alongamento funciona como hábito: no mesmo horário, em vários dias da semana.

Se o seu quadril é travado, esta aula de mobilidade do meu canal é um bom começo, antes mesmo de pensar em espacate:

"Quadril travado? Faça essa aula de 15 minutos": mobilidade de quadril no chão, para fazer em casa.

Como treinar o espacate em casa? Passo a passo seguro com bloco e parede

Esta é a sequência que eu uso na aula dos splits, adaptada para quem está começando. Faça sempre os dois lados e fique em cada posição respirando, sem dar tranquinhos. Se uma etapa já é intensa para você, fique nela por algumas semanas antes de passar para a próxima.

  1. Converse com seu médico antes, se tiver alguma condição de saúde. A lista está mais abaixo, em "Quando falar com o médico".
  2. Aqueça e mobilize o quadril. Sente com as duas pernas dobradas para o mesmo lado, uma à frente e a outra atrás. A ideia é fechar o quadril o máximo que você conseguir, com as duas mãos no chão e a coluna crescendo. Troque de lado algumas vezes e termine com círculos de quadril em quatro apoios.
  3. Pombo com bloco. Dobre a perna da frente no chão, com o joelho à frente do corpo, e estenda a perna de trás. Quem está começando deixa o pé da frente mais perto do corpo, e não lá na frente: é mais confortável para o joelho. Deixe o bloco à sua frente para apoiar as mãos; quem já consegue apoia os cotovelos nele. Se o quadril fica muito longe do chão, pode sentar no bloco. A ideia não é entrar na posição total: é usar o bloco para trabalhar a postura, inspirando e soltando. Se você sentir o joelho da frente, e não o quadril, desfaça a posição.
  4. Espacate lateral com apoio. Sentada, abra as pernas para os lados só até onde a coluna consegue ficar crescida, com os joelhos e os dedos dos pés apontando para o teto e as mãos no chão à sua frente. Mantenha as coxas ativas, porque "não estar ativo é perigoso para o joelho". Fique, respire, solte e entre mais duas vezes, abrindo só o que o corpo deixar. Na aula dos splits eu faço com um bloco embaixo de cada calcanhar, o que aprofunda a posição: é para quem já tem amplitude. Se você está começando, ou se sentir o joelho, faça sem os blocos.
  5. Espacate frontal com o quadril fechado.
    • Ajoelhada, leve uma perna à frente, como num afundo, com as mãos no joelho da frente, e feche bem o quadril. Cresça a coluna com a barriga firme, sem prender o ar, para a lombar não afundar.
    • Apoie as mãos no chão ou nos blocos, um de cada lado, e estique a perna da frente com o pé em flex: é o meio espacate. Se ela não estica inteira, não tem problema.
    • Só então, se o corpo deixar, escorregue devagarzinho o pé da frente para a frente, com as mãos nos blocos controlando a descida. A ideia é não abrir o quadril.
    • Pare no seu limite, respire e saia pelo mesmo caminho, com a ajuda das mãos. Se o joelho de trás incomodar no chão, dobre a toalha embaixo dele.
    Depois, troque de lado e descanse um pouco na postura da criança.
  6. Abertura relaxada na parede. Deite de costas com o bumbum bem colado na parede e as pernas para cima. Abra as pernas para os lados e deixe apenas ceder: aqui você não empurra nada. Para sair, apoie as duas mãos nas pernas e vá ajudando a fechar, devagar; se as pernas formigarem, saia antes. Depois abrace os joelhos e role devagar de um lado para o outro. Essa compensação é importantíssima.
  7. Repita mais do que aprofunda. Faça a sequência em vários dias da semana, sempre os dois lados. Como eu digo na aula de princípios da flexibilidade: "me interessa muito mais você se alongar 15 minutos por dia do que se alongar uma hora, uma vez por semana". A amplitude cresce na repetição, não no dia em que você força.

O que é "fechar o quadril" no espacate frontal?

É o detalhe que mais muda o espacate frontal. Quadril fechado quer dizer quadril virado para a frente, com os dois lados da bacia na mesma linha, apontando para o pé da frente. Na aula eu explico assim: "a ideia é fechar esse quadril, porque para a gente entrar nesse split, é muito importante que o quadril seja fechado atrás".

Quando o quadril abre, o lado da perna de trás gira para fora e o corpo desce com mais facilidade. Parece que você avançou, mas a perna de trás rodou, o alongamento saiu da frente do quadril e o espacate virou uma posição torta, no meio do caminho entre o frontal e o lateral. Com o quadril fechado você vai ficar mais longe do chão, e está certo assim.

Três checagens que ajudam:

  • Mãos na cintura: os dois ossinhos da frente do quadril ficam na mesma altura e virados para a frente.
  • Pé da frente em flex, com os dedos apontando para o teto.
  • Joelho e peito do pé da perna de trás virados para o chão, e não para o lado.

Por que um lado do espacate abre e o outro não?

Porque a gente não é igual dos dois lados. Quase todo mundo tem um lado mais alongado que o outro, e às vezes a diferença vem do próprio quadril, como no meu caso. Acontece com bailarina também.

Na aula de iniciação aos splits eu conto isso para as alunas: "até eu, que faço há 35 anos, o lado direito vai, porque eu sou um pouco mais alongada da perna direita, mas o lado esquerdo, por conta do meu quadril, é muito difícil". E completo: se eu faço há 35 anos e para mim ainda é difícil, então está tudo certo.

O que fazer com o lado difícil:

  • Faça os dois lados sempre, com o mesmo cuidado. Não force o lado difícil para alcançar o fácil.
  • Use mais apoio desse lado: bloco mais alto, menos amplitude, mais respiração. No meu lado esquerdo eu falo para mim mesma o que falo para as alunas: "esse meu lado não abre, tudo bem, mantenha o seu limite".
  • Compare você com você. Tire uma foto da posição de vez em quando, sempre do mesmo ângulo, e olhe a evolução em semanas, não em dias.

Dá para fazer espacate em 1 semana ou em 30 dias?

A resposta honesta: não existe prazo, e desconfie de quem promete. O tempo depende de onde você parte, da forma do seu quadril e da sua constância, e pode ser diferente até entre os seus dois lados.

Querer zerar em uma semana num corpo adulto é risco de lesão. Na aula de princípios da flexibilidade eu explico por quê: se o corpo entra uma vez só numa amplitude que ele mal aguenta sustentar, "ao invés dele ganhar, ele vai lesionar". O espacate é uma posição que pede treinamento, repetição, inspiração e expiração certas e respeito ao limite do corpo, "porque é uma posição que lesiona".

E tem outra coisa que eu sempre lembro: a progressão a curto prazo quase não se vê. Você não vai notar diferença de um dia para o outro. Mas a amplitude que vem devagar, com repetição, tem durabilidade, e só se perde se você parar de treinar.

Então, em vez de "espacate em 30 dias", pense em 30 dias de rotina: alongar em vários dias da semana, um pouco de cada vez, e medir a evolução pela sua foto, não pelo chão.

Quais são os erros mais comuns de quem treina espacate?

  • Forçar. Puxar, dar tranquinho, contar até dez rangendo o dente: muita gente aprendeu a alongar assim, e corpo que é forçado não solta, ele trava. Eu não trabalho num formato em que a professora chega e já "arregaça" a perna da aluna, e não concordo com esse tipo de trabalho.
  • Deixar alguém empurrar as suas pernas. Quem controla a descida é você, com as mãos no chão ou no bloco.
  • Treinar com o corpo frio. Primeiro aquecimento e mobilidade de quadril, depois a abertura.
  • Abrir o quadril no espacate frontal. O corpo desce mais, mas desce torto.
  • Deixar a coxa desligada no espacate lateral. A coxa ativa protege o joelho.
  • Prender a respiração. É na expiração que o músculo cede.
  • Entrar e sair de uma vez. Escorregue devagarzinho e saia pelo mesmo caminho, com o apoio das mãos.
  • Treinar só de vez em quando. Consistência vale muito mais do que intensidade.
  • Confundir desconforto com dor. O desconforto está pegando, mas dá para seguir. A dor aguda é aquela que não dá para seguir, que parece que vai rasgar, que vai machucar. Essa não me interessa: pare.

Quando não treinar espacate, e quando falar com o médico?

Eu sou formada em Educação Física, sou bailarina e tenho um vasto conhecimento de corpo, mas não sou médica. Converse com seu médico antes de treinar abertura de pernas se você tem:

  • hérnia de disco, em qualquer região da coluna;
  • osteoporose;
  • uma lesão recente: não saia alongando em cima dela, porque você não sabe se ela precisa de repouso;
  • uma cirurgia recente, ou já operou quadril, joelho ou coluna;
  • gravidez de alto risco;
  • pressão alta descompensada.

Com dor crônica, começo de artrose ou gravidez, mesmo saudável, converse também com seu médico e diminua a amplitude das posições.

Durante o treino, pare se sentir dor aguda, formigamento, falta de ar ou tontura. Fisgada ou dor dentro da articulação também são sinais para parar. Na dúvida, pare e converse com seu médico.

Quem escreve

Renata Bardazzi, bailarina do Balé da Cidade de São Paulo

Eu sou Renata Bardazzi. Desde 2012 sou bailarina do Balé da Cidade de São Paulo, a companhia oficial do Theatro Municipal de São Paulo. São 35 anos na dança e mais de 20 de carreira profissional. Antes, passei pela Cisne Negro Cia. de Dança, a partir de 2005, e pela São Paulo Companhia de Dança, de 2008 a 2012. Também estudei em Dresden, na Alemanha.

Sou graduada em Educação Física (CREF 200618-G/SP), criei o Método Bodydance Progress em 2020 e desenhei a Rotina de Flexibilidade para mulheres que se sentem travadas. Hoje tenho mais de 5.500 alunas online. Conheça a minha trajetória.

Perguntas frequentes

Quantas vezes por semana devo treinar o espacate?

Constância vale mais do que intensidade: prefira sessões curtas em vários dias da semana a uma sessão longa de vez em quando. Na Rotina de Flexibilidade, por exemplo, as aulas são de segunda a sábado, com o domingo livre para o corpo descansar. Como referência mínima, o American College of Sports Medicine recomenda, para adultos saudáveis, exercícios de flexibilidade para os grandes grupos musculares, somando 60 segundos em cada exercício, em 2 ou mais dias por semana.

Preciso de bloco de yoga para treinar espacate?

Ajuda, mas você não precisa comprar nada para começar. Uma almofada mais firme substitui o bloco, e um livro grosso também serve para apoiar as mãos. Além disso, você só precisa de um tapete ou de uma toalha grande e de um pedaço de parede livre.

Espacate dói? Como saber se estou forçando?

Desconforto, sim; dor aguda, não. O desconforto está pegando, mas dá para seguir respirando. A dor aguda é aquela que não dá para seguir, que parece que vai rasgar, que vai machucar. Fisgada, formigamento ou dor dentro da articulação também são sinais para parar. Se a dor continuar depois do treino, converse com seu médico.

Qual é mais fácil, o espacate frontal ou o lateral?

Depende do corpo. Eu, por exemplo, tenho bastante amplitude nas segundas posições, com as pernas para os lados, e o posterior de coxa encurtado. Treine os dois na mesma sessão, cada um no seu tempo, sempre depois de aquecer e de mobilizar o quadril.

Dá para começar a treinar espacate depois dos 40 ou dos 50 anos?

Dá. Não existe idade máxima para treinar flexibilidade com progressão e cuidado. O que muda é a pressa que o corpo aguenta: quanto mais tempo você ficou sem alongar, mais devagar vale começar. Com qualquer condição de saúde, como osteoporose ou artrose, converse antes com seu médico, e deixe o objetivo ser a sua amplitude máxima, não o chão.

Tenho joelho ou quadril operado. Posso treinar espacate?

Só com o aval do seu médico ou do seu fisioterapeuta, que conhecem a sua cirurgia. O espacate pede muita amplitude do quadril e um joelho protegido, e depois de uma cirurgia quem diz o que pode é quem acompanha você. Se for liberada, peça para ele dizer quais posições evitar e respeite a amplitude que ele indicar.

Como se chama o espacate no Ballet?

Em francês, a língua do Ballet, a abertura completa das pernas se chama grand écart. Nas aulas, muita gente também diz split, do inglês. No Ballet a flexibilidade trabalha junto com a força: a perna precisa abrir e também ser sustentada. Se você quer começar Ballet adulta, eu escrevi um guia para isso: Ballet adulto iniciante.

Por onde continuar?

"Vai no limite. Não precisa chegar no máximo hoje."

Se você quer treinar com método, na ordem certa e sem pular etapas, a Rotina de Flexibilidade é o meu programa de aulas guiadas para fazer em casa. São 30 aulas em 5 semanas, de segunda a sábado, que começam pela respiração e por amplitudes pequenas e vão aprofundando aos poucos: quadril, posterior de coxa, parte interna da coxa, coluna e, a partir da terceira semana, os splits. Antes da primeira aula prática, eu ensino os princípios da flexibilidade, as contraindicações e um teste de 8 movimentos para você saber de onde está partindo.

Quero conhecer a Rotina de Flexibilidade

Quer ganhar flexibilidade no corpo todo, e não só nas pernas? Leia o guia como ficar mais flexível depois de adulta. Outros guias: Ballet adulto iniciante e dança para emagrecer em casa.

Fontes

  • Garber CE e outros. American College of Sports Medicine position stand. Quantity and quality of exercise for developing and maintaining cardiorespiratory, musculoskeletal, and neuromotor fitness in apparently healthy adults: guidance for prescribing exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2011;43(7):1334-1359. doi.org/10.1249/MSS.0b013e318213fefb
  • Renata Bardazzi. Rotina de Flexibilidade: aulas de introdução "Princípios da Flexibilidade" e "Contraindicações"; semana 2, aula 6; semana 3, aula 4 (iniciação aos splits); semana 5, aulas 4 (aula dos splits) e 5.
  • Renata Bardazzi. "Teste Sua Flexibilidade em 8 Movimentos", YouTube, 01/06/2026. Assistir no YouTube
  • Renata Bardazzi. "Quadril travado? Faça essa aula de 15 minutos", YouTube, 13/08/2026. Assistir no YouTube